20 de janeiro de 2007

Artigo do John Pilger

Um artigo interessante para reflectirmos sobre o grande vizinho que temos. O autor John Pilger se não estou em erro, foi quem produziu o filme “A Morte de Uma Nação”. Para a reflexão apenas acrescento esta frase que diz, não sei de quem, “Quem só conhece a Inglaterra não conhece nada da Inglaterra”.
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Crueldade e xenofobia agitam e envergonham o país da sorte


John Pilger
The Guardian
Fonte da Notícia: http://timor-online.blogspot.com


O escritor Australiano Donald Horne deu por ironia o título do seu famoso, O País da Sorte. "A Austrália é o país da sorte dirigido por gente de segunda categoria que partilha a sua sorte," lamentou em 1964, descrevendo muita da elite Australiana como não sendo original para sempre, obcecada pela raça e escrava do poder imperial e das suas guerras.

Desde as aventuras pelo ópio da Grã-Bretanha até ao travestismo actual da América no Iraque, os Australianos têm sido enviados para lutar povos de locais longínquos com quem nunca tiveram qualquer zanga e que nunca representaram qualquer ameaça de invasão. Ao crescer, garantiram-me que era uma " tradição sagrada".

Mas depois foi “descoberta” uma outra Austrália. O único morto de guerra que os Australianos nunca choraram estava precisamente debaixo dos seus narizes: o do notável povo indígena que tinha tido a propriedade e que tinha tratado esta terra antiga durante milhares de anos, e depois lutou e morreu na sua defesa quando os Britânicos a invadiram. Numa terra cheia de memoriais, nenhum deles os lembra.

Para muitos brancos, o acordar foi rude; para outros foi chocante. Nos anos 70s, graças largamente ao breve, bravo e contestado governo Trabalhista de Gough Whitlam, as universidades abriram os seus estudos a essas heresias e os seus portões a uma sociedade Mark Twain uma vez identificada como "quase totalmente povoada pelas ordens inferiores ". Uma história secreta revelou que, muito antes do resto do mundo ocidental, os trabalhadores Australianos tinham lutado e conquistado por salários mínimos, as oito horas de trabalho, pensões, benefícios para as crianças e o voto para as mulheres.

E agora há uma surpreendente diversidade étnica, e isso aconteceu como por defeito: simplesmente não houve britânicos suficientes e "bálticos de olho-azul " que quiseram vir.

A Austrália não é notícia muitas vezes, aparte o cricket e os incêndios florestais. É uma pena, porque a regressão desta social democracia para um Estado de medo fabricado e de xenofobia é um caso de estudo para todas as sociedades que querem ser livres. No poder há mais de uma década, o primeiro-ministro Liberal, John Howard, vem dos alcances exteriores dos “neoconservadores” da Austrália. Em 1988 anunciou que um futuro governo liderado por ele perseguiria “Uma Política da Austrália”, um precursor do partido Uma Nação da infame Pauline Hanson, cujos alvos foram Australianos negros e migrantes. Os alvos de Howard têm sido similares. Um dos seus primeiros actos como primeiro-ministro foi cortar $A400m do orçamento dos assuntos dos Aborígines. "O politicamente correcto," disse, "foi longe demais."

Hoje, os negros Australianos têm ainda uma das mais baixas esperanças de vida no mundo, e as suas (condições de) saúde são as piores no mundo. Uma doença (que se pode) totalmente prever, o tracoma - derrotada em muitos países pobres - ainda cega muitos por causa das suas horrorosas condições de vida. O empobrecimento das comunidades negras, que pouco tenho visto mudar ao longo dos anos, foi descrita em 2006 pela Save the Children como "algumas das piores que temos visto no nosso trabalho através de todo o mundo ". Em vez do respeito político na forma de uma lei nacional dos direitos da terra, lançou-se uma guerra de atrito legal contra os Aborígenes; e as epidemias e os suicídios dos negros continuam.

Howard rejubila na sua promoção de "valores Australianos " - uma cocofonia muito Australiana dos adocicados valores dos poderes estrangeiros. O xuxu de um grupo de supremacistas brancos que borboleteiam na imprensa dominada por Murdoch e nos programas de conversas de rádio, o primeiro-ministro usou acólitos para atacar a "visão da história das bandas de ajuda dos negros", como se não tivesse acontecido o assassínio em massa e a resistência dos indígenas Australianos. O grande historiador Henry Reynolds, autor de O Outro Lado da Fronteira, foi perfeitamente difamado, ao lado doutros revisionistas. Em 2005 Andrew Jaspan, um Britânico acabado de ser nomeado editor do Age de Melbourne, foi sujeito a uma campanha viciosa dos neoconservadores que o acusaram de "reduzir" o Age a "um outro Guardian".

O agitar da bandeira e um hipócrita nacionalismo exacerbado de mão-no-coração, acerca do qual os Australianos cépticos tempos atrás sentiam uma ambivalência saudável, são agora comportamentos padrão em eventos desportivos e noutros eventos públicos. Servem para preparar os Australianos para a renovação do militarismo e da guerra, conforme ordenado pela administração Bush e para esconder ataques à comunidade muçulmana da Austrália. Fala e podes infringir uma lei de sedição de 2005 feita para intimidar com a ameaça de prisão até sete anos. Uma vez descrito nos media como o “vice-sheriff” de Bush, Howard não objectou quando Bush, sabendo disso, o promoveu a "sheriff para o Sudeste da Ásia ".

Como um mini-Blair, enviou tropas e polícias federais para as Ilhas Salomão, Tonga, Papua Nova Guiné e Timor-Leste. No novo independente Timor-Leste, onde o governo Australiano colaborou com os 23 anos de ocupação sangrenta da Indonésia, a "mudança de regime " foi efectivamente executada no ano passado com a resignação do primeiro-ministro, Mari Alkatiri, que teve a ousadia de se opor à exploração unilateral de Camberra dos recursos do petróleo e do gás do seu país.

Contudo, é um homem, David Hicks, um perdedor espectacular na nova Austrália, quem agora ameaça a face "sortuda" de Howard. Hicks foi encontrado entre os Taliban no Afeganistão em 2001 e vendido como prémio aos Americanos pelos senhores da guerra apoiados pela CIA. Passou mais de cinco anos na Baía de Guantánamo, incluindo oito meses numa cela sem luz solar. Foi torturado, e nunca foi acusado de qualquer crime. Howard e o seu Procurador-Geral, Philip Ruddock, recusaram mesmo pedir a repatriação de Hicks, como é seu direito constitucional, visto que não há leis Australianas sob as quais Hicks pode ser acusado. A crueldade deles é de tirar a respiração.

Uma campanha persistente feita pelo seu pai, Terry, desencadeou uma espécie de vergonha pública que está a crescer. Isto já aconteceu antes na Austrália, como quando da marcha de um milhão de pessoas através da Ponte do Porto de Sydney exigindo justiça para os negros Australianos, e a corajosa acção directa dos jovens que forçaram o encerramento do conhecido campo de detenção em áreas distantes para refugiados ilegais, com as suas celas de isolamento, spray de pimenta e tareias. Os que procuram asilos apanhados nos seus barcos a meter água pela sempre-vigilante Força de Defesa Australiana são agora encarcerados atrás de vedações eléctricas na pequeníssima Ilha de Natal a mais de 1,000 milhas do país da sorte.

Howard não enfrenta nenhuma oposição real do partido trabalhista complacente. Os sindicatos, enfrentando um recuo da história orgulhosa dos direitos dos trabalhadores da Austrália e com cerca de 43% de desemprego juvenil, mexeram-se e encheram as ruas. Mas talvez algo de mais alargado e profundo está a vir de uma nação cuja auto-imagem mais duradoura e melancólica é a de caçadores de coelhos desobedientes. Durante a recente série das Ashes, Ian Chappell, um dos capitães de cricket mais admirados da Austrália, abandonou a caixa de comentários quando Howard entrou. Depois de ter visto com os próprios olhos as condições numa prisão de refugiados, Chappell disse: "Estes são seres humanos e simplesmente não podem ser tratados assim ... no paleio do cricket era como fazer batota. Estão a roubar-lhes uma oportunidade justa."

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